Quando informação demais não significa compreensão

Nunca foi tão fácil descobrir alguma coisa.

Uma dúvida surge durante uma conversa e, antes que ela termine, alguém já encontrou uma resposta. Uma notícia atravessa o mundo em segundos. Livros que durante séculos estiveram disponíveis apenas em determinadas bibliotecas podem ser consultados de uma tela. Aulas, documentos, pesquisas, mapas, arquivos históricos e opiniões de pessoas que jamais conheceríamos disputam espaço diante de nossos olhos.

Isso é extraordinário.

Grande parte da história humana foi marcada não pelo excesso, mas pela dificuldade de acesso à informação. Conhecimento podia depender de distância, dinheiro, instituições, alfabetização, posição social ou simplesmente da existência de alguém capaz de preservar e transmitir aquilo que sabia.

Nosso problema parece diferente.

Carregamos no bolso uma porta para uma quantidade de informação que nenhuma pessoa seria capaz de consumir durante uma vida inteira.

Mas existe uma pergunta desconfortável escondida dentro dessa abundância:

ter acesso a mais informação nos tornou necessariamente mais capazes de compreender?

Talvez não.

Porque encontrar uma resposta e compreender uma questão não são exatamente a mesma coisa.

Nunca soubemos tanto — ou apenas recebemos mais?

É tentador olhar para a quantidade de informação disponível e concluir que nos tornamos, por consequência, mais bem informados.

Em certo sentido, isso é verdade.

Podemos acompanhar acontecimentos distantes quase em tempo real. Podemos comparar documentos, consultar especialistas, acessar pesquisas acadêmicas, ouvir testemunhos e encontrar perspectivas que durante muito tempo permaneceriam fora de nosso alcance.

Isso não deveria ser diminuído.

A democratização do acesso ao conhecimento representa uma das possibilidades mais extraordinárias do mundo contemporâneo.

O problema começa quando confundimos disponibilidade de informação com compreensão.

Receber uma informação significa que alguma coisa chegou até nós.

Compreendê-la exige mais.

Exige saber de onde ela veio, em que contexto surgiu, quais evidências a sustentam, quais limites possui, como se relaciona com aquilo que já sabemos e o que poderia nos fazer mudar de conclusão.

Uma manchete pode nos informar que algo aconteceu.

Compreender por que aconteceu talvez exija história.

Um número pode descrever uma realidade.

Compreender o que ele significa talvez exija comparação.

Uma frase pode ser verdadeira.

Retirada do contexto, porém, pode produzir uma impressão profundamente enganosa.

Por isso, quantidade e compreensão não crescem necessariamente juntas.

Às vezes, acontece justamente o contrário.

Quando mais começa a significar menos

O problema do excesso de informação não nasceu com as redes sociais.

Muito antes delas, pesquisadores já investigavam aquilo que passou a ser chamado de sobrecarga informacional: situações em que a quantidade, velocidade ou complexidade das informações disponíveis ultrapassa nossa capacidade de processá-las de maneira útil.

Isso não significa que exista uma quantidade universal de informação a partir da qual todo cérebro simplesmente “entra em pane”.

O problema é mais complexo.

Importam o tempo disponível, a dificuldade da tarefa, a qualidade das informações, nossa familiaridade com o assunto e aquilo que precisamos decidir.

Mas a ideia central permanece importante:

mais informação nem sempre produz decisões melhores.

Quando tudo parece relevante, selecionar se torna difícil.

Quando versões diferentes chegam ao mesmo tempo, verificar exige esforço.

Quando novas informações substituem as anteriores antes mesmo que consigamos avaliá-las, reagir pode se tornar mais fácil do que compreender.

E talvez este seja um dos paradoxos de nossa época.

Durante séculos, uma dificuldade humana fundamental foi conseguir informação.

Agora precisamos também aprender a sobreviver à abundância dela.

O excesso de informação pode produzir uma estranha ilusão: a sensação de que sabemos muito simplesmente porque vimos muita coisa.

A sensação de saber

Existe uma diferença silenciosa entre reconhecer alguma coisa e compreendê-la.

Vemos repetidamente um termo.

Lemos algumas manchetes.

Assistimos a vídeos curtos sobre o assunto.

Encontramos pessoas defendendo posições diferentes.

Depois de algum tempo, aquele tema começa a parecer familiar.

E familiaridade pode ser confundida com conhecimento.

Passamos a reconhecer nomes, argumentos e frases. Talvez consigamos até participar de uma discussão.

Mas, se alguém perguntar como sabemos aquilo que acabamos de afirmar, a situação pode mudar.

Qual é a fonte?

O estudo realmente concluiu isso?

A frase foi dita naquele contexto?

Há especialistas que discordam?

Estamos diante de um fato estabelecido, de uma interpretação plausível ou apenas de uma hipótese repetida muitas vezes?

Essas perguntas são menos confortáveis.

Elas nos obrigam a atravessar a distância entre ter encontrado uma afirmação e ter razões suficientes para aceitá-la.

Pesquisas sobre avaliação de informações na internet têm mostrado justamente como essa tarefa pode ser difícil. Não basta reconhecer uma página bem construída, encontrar referências ou perceber que um texto parece profissional. Julgar credibilidade exige investigar a origem da informação e compará-la com outras fontes.

Isso vale especialmente quando aquilo que encontramos confirma algo em que já desejávamos acreditar.

Porque o problema não está apenas do lado de quem foi enganado.

Está também em nossa facilidade para diminuir o nível de exigência quando a informação chega dizendo exatamente aquilo que esperávamos ouvir.

Quem decidiu o que chegou até você?

Existe ainda outra questão.

A informação que encontramos não chega diante de nós em estado neutro.

Alguém escolheu uma manchete.

Alguém decidiu qual trecho seria destacado.

Uma plataforma precisou ordenar resultados.

Um sistema recomendou determinado conteúdo.

Nós mesmos seguimos algumas pessoas e ignoramos outras.

Nossos amigos compartilham certas histórias.

Nossas experiências anteriores tornam algumas interpretações imediatamente plausíveis e outras difíceis de aceitar.

Isso não significa que exista necessariamente alguém controlando secretamente tudo aquilo que pensamos.

A realidade é menos cinematográfica — e talvez mais interessante.

Todo acesso à realidade envolve algum tipo de seleção.

Nenhum jornal consegue publicar todos os acontecimentos do dia. Nenhum pesquisador consegue investigar todas as perguntas possíveis. Nenhuma pessoa consegue ler tudo aquilo que poderia ser relevante.

Selecionar é inevitável.

O problema começa quando esquecemos que houve seleção.

Quando aquilo que apareceu diante de nós parece representar simplesmente “o que está acontecendo”, deixamos de perguntar o que ficou fora do enquadramento.

E uma visão parcial pode ser composta inteiramente de informações verdadeiras.

O problema não é apenas acreditar em mentiras

Quando falamos sobre desinformação, é natural imaginar afirmações falsas.

Elas certamente importam.

Mas existe uma forma mais sutil de compreender mal o mundo.

Podemos reunir fatos verdadeiros e ainda chegar a uma conclusão ruim.

Imagine alguém tentando compreender uma cidade conhecendo apenas seus crimes.

Os crimes são reais.

Ou apenas suas obras de caridade.

Elas também são reais.

Ou somente seus indicadores econômicos.

Também podem ser verdadeiros.

Nenhum desses elementos precisa ser inventado para produzir uma imagem distorcida.

Basta transformar uma parte em totalidade.

O mesmo acontece em debates políticos, religiosos, científicos e culturais.

Uma estatística verdadeira sem contexto pode enganar.

Um episódio histórico verdadeiro pode ser usado para sustentar uma generalização que ele não prova.

Uma experiência pessoal verdadeira pode ser tratada como se representasse todas as experiências.

Uma passagem bíblica verdadeira pode ser retirada de seu contexto e utilizada para defender algo que o próprio texto não pretende afirmar.

A verdade de cada fragmento não garante a verdade da imagem construída com eles.

Compreender exige relação.

Exige proporção.

Exige contexto.

E, frequentemente, exige paciência suficiente para resistir à primeira explicação que parece organizar tudo.

Seria melhor ter menos informação?

Aqui surge uma tentação.

Se a abundância cria tantos problemas, talvez devêssemos concluir que o mundo anterior era intelectualmente melhor.

Seria difícil sustentar isso.

O passado também conheceu propaganda, boatos, manipulação, censura, ignorância e concentração de conhecimento.

Além disso, ampliar o acesso à informação tornou possíveis coisas extraordinárias.

Uma pessoa pode aprender gratuitamente sobre assuntos que antes exigiriam acesso a instituições específicas.

Pacientes podem chegar a consultas mais preparados para conversar sobre sua própria saúde — desde que saibam distinguir boas fontes de conteúdos duvidosos.

Documentos históricos podem ser examinados por pessoas a milhares de quilômetros dos arquivos que os preservam.

Pesquisas científicas podem circular entre países em uma velocidade antes inimaginável.

Vozes que durante muito tempo tiveram pouca possibilidade de publicação podem participar da conversa pública.

Não precisamos escolher entre celebrar tudo isso e reconhecer seus riscos.

O problema não é termos informação demais.

O problema é imaginar que aumentar o acesso elimina automaticamente a necessidade de discernimento.

Na verdade, talvez aconteça o contrário.

Quanto maior a biblioteca, mais importante se torna aprender a procurar.

Saber avaliar também precisa ser aprendido

Uma das descobertas interessantes das pesquisas sobre credibilidade online é que pessoas experientes em verificar informações frequentemente não permanecem muito tempo examinando apenas a página que estão avaliando.

Elas saem dela.

Procuram quem está por trás da publicação.

Verificam o que outras fontes dizem.

Buscam a origem de uma afirmação.

Comparam evidências.

Essa prática ficou conhecida como leitura lateral.

O princípio é simples, embora suas consequências sejam profundas:

não precisamos aceitar que uma fonte seja aquilo que ela diz ser antes de investigar o que existe ao redor dela.

Talvez isso pareça óbvio.

Mas boa parte de nossa experiência digital nos empurra na direção oposta.

A informação chega pronta para ser consumida.

A manchete pede um clique.

O vídeo seguinte começa automaticamente.

A reação pode acontecer antes da investigação.

Compartilhar leva segundos.

Compreender pode levar horas.

E corrigir uma convicção talvez leve muito mais.

Por isso, discernimento não é apenas uma ferramenta para descobrir quais informações são falsas.

É também uma disciplina para lidar com aquilo que pode ser verdadeiro.

Perguntar:

Como sabemos?

Quem está afirmando isso?

Que evidência sustenta a afirmação?

O que essa evidência não permite concluir?

Existe uma explicação alternativa?

O que me faria mudar de ideia?

Talvez essas perguntas não nos tornem imediatamente mais certos.

Mas podem nos tornar menos apressados.

E isso já é alguma coisa.

Uma antiga palavra para um problema contemporâneo

A tradição bíblica possui uma palavra importante para uma discussão como esta.

Sabedoria.

Na linguagem bíblica, sabedoria não é simplesmente possuir grande quantidade de informação.

Ela envolve discernimento, prudência, capacidade de ouvir, julgamento e uma maneira de viver diante da verdade.

O livro de Provérbios apresenta repetidamente o sábio como alguém disposto a ouvir e aprender.

Em um de seus provérbios, encontramos uma observação desconcertantemente atual: responder antes de ouvir é tratado como insensatez.

Pouco depois, outra imagem aprofunda o problema: a primeira versão de uma história pode parecer convincente até que outra pessoa venha e a examine.

Séculos depois, a carta de Tiago aconselharia seus leitores a serem prontos para ouvir e tardios para falar.

Nenhum desses textos foi escrito pensando em mecanismos de busca, redes sociais ou sistemas de recomendação.

Não precisamos fingir que foram.

O que eles reconhecem é algo mais antigo que nossas tecnologias:

o ser humano pode formar julgamentos antes de compreender suficientemente aquilo que está julgando.

A tecnologia modifica a velocidade, a escala e o ambiente em que isso acontece.

Mas não inventou nossa precipitação.

Talvez uma sociedade extraordinariamente informada ainda possa ser uma sociedade pouco sábia.

E talvez a diferença entre as duas esteja menos na quantidade de respostas disponíveis e mais na qualidade das pessoas que estão aprendendo a julgá-las.

Talvez precisemos aprender a compreender novamente

Não existe retorno possível a um mundo de pouca informação.

E provavelmente não deveríamos desejá-lo.

A questão diante de nós é outra.

Que tipo de pessoa precisamos nos tornar para viver em um ambiente no qual informações chegam mais rápido do que conseguimos examiná-las?

Talvez precisemos recuperar a disposição de dizer “não sei” antes de formar uma opinião.

Talvez precisemos distinguir urgência real da urgência produzida pela velocidade do fluxo.

Talvez precisemos aprender que consultar uma fonte não é o mesmo que avaliá-la.

Que ouvir dois lados não garante que ambos tenham o mesmo peso.

Que desconfiar de tudo não é pensamento crítico.

Que mudar de opinião diante de evidências melhores não é fraqueza intelectual.

E que compreender alguma coisa profundamente quase sempre exige mais tempo do que simplesmente reagir a ela.

Isso não resolverá todos os problemas da era da informação.

Mas talvez nos devolva uma responsabilidade que nenhuma tecnologia pode assumir por nós.

A responsabilidade de julgar.

Porque informação pode chegar até nós sem que a procuremos.

Compreensão, dificilmente.

A pergunta de nosso tempo talvez não seja apenas como ter acesso à informação. Talvez seja como nos tornar pessoas capazes de fazer justiça àquilo que sabemos.


Para continuar a reflexão

Sobrecarga informacional — Leila Shahrzadi, Ali Mansouri, Mousa Alavi e Ahmad Shabani, Causes, consequences, and strategies to deal with information overload: A scoping review (2024).
Uma revisão interdisciplinar sobre causas, consequências e estratégias relacionadas à sobrecarga informacional.

Avaliação de informação online — Sam Wineburg e Sarah McGrew, Lateral Reading and the Nature of Expertise: Reading Less and Learning More When Evaluating Digital Information (2019).
Pesquisa sobre estratégias utilizadas para avaliar a credibilidade de fontes digitais e o papel da chamada leitura lateral.

Raciocínio cívico online — Joel Breakstone e colaboradores, Students’ Civic Online Reasoning: A National Portrait (2021).
Uma investigação sobre a capacidade de estudantes de avaliar fontes e alegações encontradas na internet.

Textos bíblicos considerados nesta reflexão: Provérbios 18:13, 17; Tiago 1:19.