Há algo curioso nos Evangelhos.
Jesus tinha muito a dizer.
Ensinava sobre Deus, justiça, perdão, dinheiro, poder, oração, hipocrisia, amor, morte, esperança e Reino de Deus. Fazia afirmações que não pareciam hesitantes. Corrigia interpretações. Contava parábolas. Pronunciava advertências. Chamava pessoas a segui-lo.
E, ainda assim, fazia perguntas.
Muitas perguntas.
Perguntava aos discípulos. Perguntava às multidões. Perguntava aos religiosos que o confrontavam. Perguntava a pessoas que buscavam ajuda. Às vezes, respondia a uma pergunta com outra.
Isso pode parecer estranho.
Se alguém acredita possuir algo verdadeiro para ensinar, por que não simplesmente apresentar a resposta?
Talvez porque informar alguém e fazê-lo perceber alguma coisa não sejam exatamente a mesma tarefa.
Uma afirmação pode ser ouvida e permanecer do lado de fora.
Uma pergunta, às vezes, atravessa a porta.
Ela exige que o interlocutor participe.
Nos Evangelhos, as perguntas de Jesus não aparecem todas com a mesma função. Algumas conduzem uma conversa. Outras desafiam uma interpretação. Algumas expõem medo, desejo ou incoerência. Outras obrigam quem está diante dele a assumir uma posição.
Isso significa que precisamos resistir a uma leitura simplista.
Jesus não fazia perguntas porque considerasse todas as respostas igualmente verdadeiras.
Também não perguntava porque lhe faltassem convicções.
Ao contrário: justamente porque havia algo em jogo, certas perguntas não permitiam que seus interlocutores permanecessem neutros.
Talvez seja por isso que algumas delas ainda sejam difíceis de ouvir.
Há perguntas que revelam quem está respondendo
Em determinado momento narrado pelos Evangelhos, Jesus pergunta aos discípulos o que as pessoas diziam a respeito dele.
As respostas variavam.
Então a conversa muda.
Em Mateus 16, Jesus dirige a pergunta aos próprios discípulos:
“E vocês, quem dizem que eu sou?”
A diferença parece pequena.
Mas não é.
Enquanto a pergunta é sobre aquilo que os outros dizem, é possível responder como observador.
Uns pensam isto. Outros dizem aquilo. Há diferentes opiniões circulando.
É uma conversa relativamente segura.
Mas “quem vocês dizem que eu sou?” elimina parte dessa distância.
Pedro responde identificando Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo.
Na lógica da narrativa, a pergunta não serve apenas para reunir opiniões disponíveis. Ela conduz os discípulos da descrição do que se comenta para uma resposta que agora lhes pertence.
Isso revela uma característica importante das perguntas.
Algumas nos permitem falar sobre um assunto.
Outras descobrem nossa posição diante dele.
Podemos passar muito tempo falando sobre fé sem dizer em que realmente confiamos.
Podemos discutir amor sem examinar como amamos.
Podemos estudar justiça sem perguntar o que fazemos quando ser justo nos custa alguma coisa.
Podemos até conhecer muitas interpretações sobre Jesus sem enfrentar a pergunta que o texto coloca diante de seus próprios discípulos.
Há conhecimento que descreve.
E há perguntas que comprometem.
O medo também pode ser interrogado
Em Marcos 4, Jesus e seus discípulos atravessam o mar quando uma forte tempestade ameaça a embarcação.
Os discípulos entram em pânico.
Jesus dorme.
Eles o acordam e perguntam, em essência, se ele não se importa que estejam perecendo.
Jesus se levanta, repreende o vento e o mar, e a tempestade cessa.
Então vêm as perguntas:
“Por que vocês estão com tanto medo? Ainda não têm fé?”
Seria possível simplesmente encerrar a cena depois do milagre.
O perigo desapareceu.
Problema resolvido.
Mas a narrativa não termina quando o vento para.
Agora são os discípulos que precisam ser examinados.
A tempestade exterior revelou alguma coisa sobre aquilo que acontecia dentro deles.
Isso não significa que todo medo seja sinal de ausência de fé, nem que emoções humanas possam ser reduzidas a uma fórmula religiosa. O próprio texto está tratando de uma situação particular e de discípulos que já caminhavam com Jesus.
Mas, naquele episódio, o perigo produz mais do que uma necessidade de resgate.
Produz uma pergunta.
O que exatamente eles acreditavam sobre aquele que estava no barco com eles?
A cena termina com outra pergunta dos próprios discípulos:
“Quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?”
Uma tempestade que parecia ser apenas sobre sobrevivência termina se tornando também uma questão de identidade.
Quem é Jesus?
E o que significa confiar nele?
Às vezes queremos apenas que a tempestade pare.
A pergunta pode continuar depois que o vento passou.
Nem sempre sabemos explicar aquilo que realmente queremos
Há outro episódio particularmente interessante.
Em Marcos 10, Bartimeu, um homem cego, está à margem do caminho quando descobre que Jesus está passando.
Ele começa a gritar.
A multidão tenta silenciá-lo.
Bartimeu insiste.
Jesus manda chamá-lo.
Quando o homem finalmente está diante dele, acontece algo aparentemente desnecessário.
Jesus pergunta:
“Que queres que eu te faça?”
A situação parece óbvia.
O homem é cego. Chamou insistentemente por Jesus. Correu até ele.
Por que perguntar?
Precisamos ter cuidado para não atribuir ao texto uma explicação psicológica que ele próprio não oferece. O Evangelho não nos entrega uma nota dizendo exatamente por que Jesus formulou a pergunta daquela maneira.
Mas podemos observar o que acontece na narrativa.
Bartimeu precisa responder.
“Mestre, eu quero ver.”
Aquilo que poderia permanecer apenas implícito é colocado em palavras.
O desejo recebe voz.
Há algo profundamente humano nisso.
Nem tudo aquilo de que precisamos conseguimos nomear com facilidade.
Podemos desejar reconhecimento quando dizemos querer sucesso.
Podemos procurar controle quando afirmamos querer segurança.
Podemos querer vingança e chamá-la de justiça.
Podemos desejar ser amados e construir comportamentos destinados justamente a impedir que alguém se aproxime.
Por isso, uma boa pergunta não necessariamente cria um desejo.
Às vezes apenas obriga o desejo existente a sair das sombras.
“Que queres que eu te faça?”
No relato de Bartimeu, a resposta é clara.
Nas nossas vidas, talvez nem sempre seja.
Algumas perguntas desmontam a pergunta anterior
Há momentos ainda mais desconfortáveis nos Evangelhos.
Jesus é questionado por pessoas que desejam testá-lo, confrontá-lo ou colocá-lo diante de alternativas difíceis.
Nessas situações, ele nem sempre aceita a pergunta exatamente nos termos em que foi apresentada.
Às vezes responde com outra pergunta.
Isso importa porque toda pergunta carrega alguma moldura.
Em Lucas 10, por exemplo, um intérprete da Lei pergunta a Jesus:
“E quem é o meu próximo?”
Depois de contar a história que conhecemos como a parábola do bom samaritano, Jesus não oferece simplesmente uma definição.
Ele devolve outra pergunta: qual dos três se mostrou próximo daquele que havia caído nas mãos dos assaltantes?
O movimento é significativo.
A conversa deixa de girar apenas em torno de quem pode ser classificado como próximo e passa a exigir que o interlocutor considere o que significa agir como próximo.
Uma pergunta pode procurar a verdade.
Mas também pode tentar controlar o território em que a resposta será permitida.
Os Evangelhos mostram Jesus recusando-se, em diferentes ocasiões, a permanecer preso à moldura proposta por seus interlocutores.
Em algumas controvérsias, a contrapergunta desloca a conversa.
O interlocutor que pretendia examinar Jesus passa a ter seus próprios pressupostos examinados.
Isso nos ajuda a perceber que perguntar não é automaticamente sinal de humildade.
Também existem perguntas usadas para fugir.
Perguntas usadas para impressionar.
Perguntas usadas para adiar uma decisão.
Perguntas construídas de modo que nenhuma resposta consiga ameaçar aquilo que já decidimos preservar.
Nem toda pergunta abre uma busca.
Algumas constroem uma fortaleza.
Talvez por isso certas respostas só possam começar depois que a própria pergunta foi examinada.
Perguntar não significa relativizar
Aqui surge uma distinção necessária.
Em nossa cultura, perguntas às vezes são associadas à abertura, enquanto afirmações são associadas à rigidez.
Mas essa oposição é pobre.
Há afirmações arrogantes.
E há perguntas arrogantes.
Há respostas honestas.
E há dúvidas usadas como esconderijo.
Nos Evangelhos, Jesus pergunta e afirma.
Escuta e confronta.
Conta histórias que exigem interpretação e também pronuncia palavras diretas.
Convida pessoas a pensar e, ao mesmo tempo, chama-as a decidir.
Portanto, seria um erro transformar Jesus numa espécie de símbolo moderno da ideia de que “o importante é perguntar e nunca chegar a respostas”.
Não é isso que os relatos mostram.
As perguntas de Jesus frequentemente funcionam dentro de um ensino que possui direção.
Existe verdade em jogo.
Existe responsabilidade.
Existem escolhas que importam.
Pergunta e convicção não aparecem como inimigas.
Uma pergunta pode justamente preparar o terreno para que uma verdade deixe de ser apenas ouvida e precise ser enfrentada.
Há perguntas que continuam depois da resposta
Talvez um dos exemplos mais fortes apareça perto do fim do Evangelho de João.
Pedro havia negado Jesus três vezes.
Depois da crucificação e da ressurreição, João 21 apresenta uma conversa entre os dois.
Jesus pergunta:
“Você me ama?”
Pedro responde.
A pergunta retorna.
E retorna novamente.
Muito já foi discutido sobre os detalhes linguísticos e literários desse diálogo. Mas há algo evidente no próprio movimento da narrativa: Pedro não recebe apenas uma informação sobre o que aconteceu.
Ele precisa responder.
E sua resposta é acompanhada por uma incumbência:
“Cuide das minhas ovelhas.”
Isso impede que o amor permaneça apenas como sentimento declarado.
A pergunta se aproxima da responsabilidade.
Pedro pode dizer que ama.
Mas esse amor agora aponta para uma maneira de viver.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais algumas perguntas são tão incômodas.
Uma resposta pode exigir continuidade.
“Você me ama?” não termina necessariamente quando pronunciamos “sim”.
A vida depois da resposta pode revelar o que aquele “sim” significa.
As perguntas também podem nos ensinar a escutar
Há uma tentação comum quando acreditamos possuir algo verdadeiro.
Queremos dizê-lo imediatamente.
Isso nem sempre é errado.
Há momentos em que clareza exige afirmação.
Há injustiças diante das quais uma pergunta evasiva seria covardia.
Há pessoas que precisam de orientação, não de um enigma.
O próprio Jesus não tratava toda situação da mesma maneira.
Mas suas perguntas nos lembram de algo que nossa pressa facilmente esquece:
Antes de responder alguém, talvez seja necessário compreender onde essa pessoa realmente está.
Uma pergunta pode revelar o que uma explicação precisa alcançar.
Pode mostrar que duas pessoas estão utilizando a mesma palavra para falar de coisas diferentes.
Pode descobrir uma ferida escondida atrás de uma objeção intelectual.
Pode revelar que aquilo que parecia dúvida era medo.
Ou que aquilo que parecia certeza era apenas repetição.
Isso vale para conversas sobre fé.
E vale para quase todas as conversas humanas importantes.
Escutar não significa abandonar convicções.
Significa reconhecer que pessoas não são recipientes vazios esperando nossas respostas.
Elas chegam carregando histórias, pressupostos, desejos, experiências, medos e perguntas próprias.
Talvez comunicar a verdade também exija aprender a encontrar a pessoa que deverá ouvi-la.
Algumas respostas só existem na primeira pessoa
É relativamente fácil responder perguntas quando elas permanecem abstratas.
O que é coragem?
O que é perdão?
O que é fé?
O que significa amar o próximo?
Podemos construir definições.
Podemos citar autores.
Podemos organizar argumentos.
Tudo isso pode ser valioso.
Mas algumas perguntas mudam de natureza quando o pronome muda.
Não apenas:
O que é amor?
Mas:
Quem você ama quando amar custa alguma coisa?
Não apenas:
O que é perdão?
Mas:
O que você fará com a dívida que continua carregando contra alguém?
Não apenas:
Quem é Jesus segundo a história, a tradição ou determinada comunidade?
Mas:
Quem você diz que ele é?
A primeira forma pode produzir conhecimento.
A segunda pode revelar uma vida.
Precisamos das duas.
O problema começa quando usamos uma para evitar a outra.
Talvez não tenhamos deixado de responder
Há perguntas que imaginamos ter superado porque aprendemos a resposta correta.
Mas conhecer a resposta esperada não significa necessariamente ter permitido que a pergunta faça seu trabalho.
Podemos responder rapidamente demais.
Podemos repetir aquilo que nossa comunidade diz.
Podemos conhecer a formulação teológica.
Podemos até defendê-la muito bem.
E ainda assim talvez exista uma distância entre aquilo que conseguimos declarar e aquilo que nossa vida demonstra ter compreendido.
Isso não torna o conhecimento inútil.
Torna-o responsável.
A fé cristã não precisa escolher entre pensamento e compromisso.
Entre doutrina e transformação.
Entre respostas e perguntas.
Talvez precise recuperar a relação entre elas.
Uma resposta verdadeira pode orientar uma vida.
E uma pergunta verdadeira pode revelar se estamos realmente dispostos a percorrer o caminho que nossa resposta anuncia.
A pergunta ainda está diante de nós
Jesus fazia perguntas.
Não porque todas as respostas fossem equivalentes.
Não porque a verdade fosse inalcançável.
E não porque perguntas fossem intelectualmente superiores a afirmações.
Nos Evangelhos, suas perguntas aparecem em encontros concretos.
Diante do medo.
Do desejo.
Da controvérsia.
Da identidade.
Da culpa.
Do amor.
Do compromisso.
Algumas esclarecem.
Outras confrontam.
Algumas fazem alguém falar.
Outras tornam difícil continuar escondido atrás das palavras.
Talvez seja por isso que ainda conseguem atravessar séculos sem se transformar apenas em curiosidades antigas.
Podemos estudar o que Pedro respondeu.
Podemos analisar Bartimeu.
Podemos observar os discípulos dentro do barco.
Podemos reconstruir discussões e contextos.
Tudo isso importa.
Mas chega um momento em que o leitor percebe algo desconfortável.
A pergunta já não está apenas no texto.
Ela está diante dele.
Talvez algumas verdades não precisem apenas ser explicadas.
Talvez precisem nos encontrar em forma de pergunta.
Porque há diferença entre saber o que Jesus disse e descobrir o que nossa própria resposta a ele revela sobre nós.
Para continuar a reflexão
Bart J. Koet e Archibald L. H. M. van Wieringen (orgs.), Asking Questions in Biblical Texts (2022). Volume acadêmico dedicado às diferentes funções das perguntas nos textos bíblicos, reunindo estudos sobre seus papéis narrativos, retóricos e comunicativos.
Bart J. Koet, Counter-Questions in the Gospel of Luke: An Assessment (2022). Estudo dedicado às contra perguntas no Evangelho de Lucas e à maneira como elas participam dos encontros e do ensino apresentados pela narrativa.
Pheme Perkins, Jesus as Teacher (1990). Estudo da pesquisadora do Novo Testamento sobre Jesus como mestre, incluindo o contexto, as formas e características de seu ensino.
Textos bíblicos considerados nesta reflexão: Mateus 16:13–17; Marcos 4:35–41; Marcos 10:46–52; Lucas 10:25–37; João 21:15–17.